Quem sou eu

Carta de apresentação

Minha naturalidade é o bode. Jamais saio deste estado, nem pra ir ao banheiro. Não faço outra coisa senão ruminar.

Rumino mágoas, dores, saudades, melancolias, martírios secretos, tormentos esquecidos. Rumino sobretudo este país de insensatos em que tive o azar de nascer.

E pasto. De manhã à noite, de segunda a domingo, em fins-de-semana e feriados. Pasto desde que nasci. E pastarei até morrer. Não tenho opção.

Tal como o porco, o cururu e o gato preto, sou um bicho maldito. Quem não me abomina, ri. Quem tem pesadelos comigo, procura psicoterapia ou cartas de tarô.

Não passo dum joguete nas garras das raposas, cachorros, micos, jegues e lobos que dominam minha imaginação, meu passado, meu bairro. 

Meu poema preferido é "O corvo", naturalmente. Por isso, sou "Sonâmbulo perfeito, coberto de nevoeiros e de gelos, com certa ânsia no peito", tal qual meu bode-camarada Cruz e Sousa.

Morro de medo de virar buchada. Deve doer muito. E de parar na barriga d'alguma princesinha mimosa lanchando num McDonalds em NY, só para acabar descartado nas frias águas do Hudson e viver boiando.

Como todos sabem, os gregos homenageavam seu deus Dionísio c'um "sacrifício do bode". Os brasileiros, em contrapartida, optaram logo por se transformar em caprinos. É muito mais simples.

Como todos também sabem, "caprichoso" vem de caprino, e significa "aquele que sabe escolher". A julgar pelas pessoas que mandam no mundo, vê-se que é um tremendo papo-furado.

Como todo mundo não sabe, tenho um amiguinho imaginário. O meu se chama Zé-Ferino. O cara tem a língua mais afiada que já vi. Não deixa provocação sem resposta. Tem pinta de erudito, o que assusta um pouco as vacas que pastam ao largo do meu nada imaginário mundo. Mas apesar da cara de enfezado Zé-Ferino é inofensivo, salvante o prazer com que espezinha os canteiros de orquídeas das minhas fantasias.

Zé-Ferino tem um tio. Seu nome é Bafo de Anta. Segundo algumas más línguas na família, já cobriu mais de 500 cabras e produziu cerca de 20 mil descendentes. Agora estão todos por aí, sem eira nem beira.

Eu estava relutante em exibir informações da minha intimidade, mas não resisti. Esta é uma situação típica que vivo dia a dia. Os bodes fazem fila para entrar no caminhão e ir para o açougue, onde irão virar carne pra paella, tutu e buchada e couro de sapato. Antes, porém, curtem levar um bom ferro, que é pra morrerem em estado de graça.


Mas me desculpe, meu sarcasmo certamente está extrapolando o razoável. Esqueça tudo que eu disse acima.


O que quero mesmo dizer é que sou um cara fácil, gosto de conhecer pessoas novas. Me acho um moleque com mais de 50. Tenho espírito brincalhão, ar de galã, jeito folgazão mas trejeitos comedidos, pois me causa espécie a expansividade fútil. Sendo apreciador da cultura asiática, me ligo nas pronunciadas características dos amarelos e até procuro compreender por que em tantas coisas eles são tão diferentes de nós. E não sendo um alienado arredio à diversidade humana, estou ciente de que faço parte desta colossal energia que corre o mundo.

Sou autoconfiante, não é qualquer revés que me abala os nervos, estou plenamente imbuído da convicção de que esta existência é uma batalha e só os guerreiros sobrevivem. Às vezes sou até abnegado, não me furtando a padecer estoicamente ante situações que reconheço estar além do meu controle.

Tenho carreira estável, com um salário digno que não é nem mais nem menos do que preciso para prover o mínimo de conforto e segurança aos que dependem de mim. Não costumo reclamar das chances que a vida me deu. Esforço, honestidade e determinação operam milagres, que infelizmente muitos lá fora passam os dias a esperar que ocorram por, com perdão do mau jeito, milagre.

E não é apenas um carreira estável com uma vida estável que tenho, não. Disponho também, bem equilibrada sobre ombros largos e sólidos e um pescoço nem longo nem curto, nem grosso nem fino, duma cabeça boa -- relativamente grande, é verdade, mas suficiente para acomodar minhas igualmente boas emoções e meus igualmente bons pensamentos. Meu rosto é meio rechonchudo, admito, mas está sempre iluminado por um grande sorriso largo, jovial, animado e animador, mesmo em tempos sombrios e horas furtivas.

Sou leal à minha esposa, sincero com meus amigos, cordial com conhecidos, receptivo a transeuntes na rua que desejam saber a hora e motoristas perdidos que necessitem de directions. Sou trabalhador. Sou, como já mencionado anteriormente, honesto, responsável, sensual, apaixonado, feliz, zeloso e divertido. Gosto da vida ao ar livre, gosto, ó Deus, gosto da luz do sol, curto parques, me encanto com o chilrear dos bem-te-vis, o gorjear dos sabiás-laranjeira e até mesmo com o pipilar dos pardais que, pobres, sequer cantar podem. Frequento museus de arte, faço longas caminhadas (sobretudo à noite, pois, graças aos céus, me dou bem com o escuro e as sombras, embora sempre opte por uma saudável claridade; em todo caso, meus olhos têm uma incrível capacidade de se adaptarem quase que instantaneamente a uma situação ou outra; mas o que prefiro mesmo, claro, é a alvorada e o crepúsculo, já que são as horas mais poéticas, não pertencendo nem ao dia nem à noite). Gosto de conhecer lugares novos, me ajusto com facilidade a ambientes estranhos e em dois minutos já estou me sentindo em casa, o que me faz um sujeito francamente aberto a novidades, sejam quais forem. Estou aprendendo trabalhos manuais (tricô, crochê, mesmo à custa dum certo preconceito próprio). Quando mamãe estava viva a levava semanalmente a restaurantes (se me permitem uma piadinha -- esqueci de adicionar que sou um piadista nato, estou sempre disposto a rir mesmo de circunstâncias mais fúnebres -- não me convidem para enterros, pois faço até o defunto chorar de rir --, embora saiba manter a compostura em eventos que requeiram um mínimo de solenidade e evito, sempre que posso, debochar dos outros simplesmente para ridicularizá-los, mas, como dizia, se me permitem uma piadinha), depois que mamãe morreu, parei de levá-la semanalmente a restaurantes. Acima de tudo, levo na esportiva quando ninguém acha graça das minhas piadas e procuro logo contar outra para quebrar o mal-estar.

Gosto de cinema, principalmente dos grandes filmes de aventuras com ação sufocante do começo ao fim, pois também sou um homem de ação, evito cair em estados contemplativos que, embora ajudem a relaxar a tensão do dia-a-dia, nem sempre são muito produtivos. Curto dançar, me amarro no carnaval, inclusive este ano vou ver de dou um jeito de desfilar numa escola-de-samba.

Sou um homem romântico!

Não temo os murmúrios sedutores da fantasia e sempre procuro concretizar meus sonhos, por mais extravagantes que possam parecer aos olhos dos mais conservadores e metódicos que desprezam tudo que mesmo remotamente lembre subjetividade. Sou dono do meu taco. A experiência da vida me ensinou que podemos, sim, distinguir os sonhos realizáveis daqueles que são pura perda de tempo. Hoje, é esse tirocínio que me permite separar o joio do trigo, identificando as possibilidades efetivas e me precavendo, assim, de furos n'água. Resumindo, sou um homem com a cabeça nas nuvens e os pés no chão.

Embora tenha mais de 50, aparento apenas 47. É que olho o mundo com bons olhos e escuto as estrelas com bons ouvidos. Não tenho medo da morte, pois, quando chegar a fatídica hora, estarei convicto de ter executado o que me cabia executar e me afastado do que me restava abandonar. Sou vaidoso, cuido dos cabelos, embora sempre os use bem raspados, não fumo (já fumei, há muitas décadas), não uso drogas (já usei, até os trinta e poucos, quando percebi, talvez um pouco tarde demais, que perseverar buscando o prazer a qualquer custo só me traria dissabores), sou macho mas com sensibilidade suficiente para as idiossincrasias femininas, sou branco mas consciente da tragicidade dos que não são, me orgulho da minha integridade, sou emocional, sentimental e espiritualmente independente, tenho, repito, senso de humor, sou fisicamente saudável, apesar de uma pressão ligeiramente elevada e um certo excesso de ácido úrico que às vezes me força a ficar na cama com os dedões do pé inchados feito duas batatas-doces.

Sou magro, atraente (ou, se preferirem, bem-apanhado), nunca pedi a ninguém para me pagar cerveja, às vezes sou sarcástico, não sou perfeito mas sou feliz e meus vizinhos gostam de mim, o que, no meu modesto caderninho de critérios da existência, é uma dádiva divina. Minhas qualidades especiais são evidentes, vejo na reação que causo nos outros, mas nem por isso sou arrogante ou exibido. Gosto da tradição, cultivo as convenções, sei que trago dentro de mim o peso e a benção da experiência humana, não sou o primeiro homem nesta Terra abençoada, não tenho o direito de desprezar os grandes feitos dos meus antecessores em troca de explorações (aventuras) temerárias.

Sou ajuizado, amável, gentil e brilhante. Não arrisco o pescoço por nada neste mundo. Concedo que cometo pequenos crimes, tudo bem, mas nada que vá me impedir de conquistar a recompensa de outras possíveis vidas que existam depois desta suave jornada que todos vimos empreendendo em nossa bela comunhão planetária. Não sou frívolo, acho, embora, reconheço, adore ser mimado. Não pratico esportes mas cuido da saúde, não quero me tornar um fardo para meus filhos quando envelhecer. Ah! Sim, tenho filhos. Eles me amam. Eu os amo. Fervorosamente. São minha paixão. A razão do meu viver. Meu passatempo. Meu presente. Meu futuro. Por eles ponho a mão no fogo e os pés na salmoura.

Sou exigente, mas sem frescura. Até onde me permite minha razoavelmente sólida cultura e minha classe social, sei apreciar o que é bom. Tenho senso estético apurado. Desde muito pequeno sempre fui um desbravador do belo. Nem por isso ando me pavoneando por aí. Não, não vejo mal algum em anunciar minhas virtudes. Também não vejo motivo para ser autodestrutivo. Acredito na autoformação. Sou um leitor insaciável. Leio em pé. Deitado. Sentado. Andando. Comendo. No banheiro. Enquanto dou banho na Zezeí, minha estimada fox vira-lata, um tico desobediente, reconheço, mas alegre, estimulante e faceira como o dono.

Gosto de futebol. De bocha, como papai, que era campeão da modalidade em sua cidade natal, Brusque, terra de gente valorosa e trabalhadora. Se me der na telha, jogo até de baseball e golfe. Um pouco de sofisticação não faz mal a ninguém, faz? E nunca é demais participar dum jogo com 18 buracos.

Não fujo do perigo. Não tenho medo do verão. Mas nunca fui à Bahia, nem pretendo. Estou sempre pronto para me divertir, para curtir uma cervejinha com os amigos e jogar bastante conversa fora, para fazer companhia, para trocar confidências, para ouvir, para dar um rápida aula de química.

Adoro sentir o vento no rosto.

Nos últimos tempos ando brincando com a idéia de sair a esmo, zanzar pela cidade até a noite, entrar num boteco, tomar uma pinga, puxar prosa com o peão ao lado para não me sentir sozinho, falar distraidamente da sensualidade das meninas de roupas atrevidas desfilando na rua, a juventude liberada de hoje, coisa e tal, esquecer que tenho carro, esquecer os luxos e confortos que o trabalho duro me deu, esquecer o trabalho duro que ainda me cumpre enfrentar para levar a patroa à Flórida ano que vem, esquecer que esta minha vidinha provinciana até que valeu a pena, sentenciar, com a voz solene dos sábios, que sexo não é tudo na vida, quero apenas a humildade de saber o que posso e o que não posso ter, o que posso e o que não posso ser, umas boas gargalhadas neste finzinho de tarde miraculoso.

Então, assim que a noite começar a cair, antes do jornal, tomar uma chuveirada rápida, verificar meu email, talvez dar uma última olhada em alguma foto dum passado longínquo antes de me sentir capaz de entender a dor duma mãe que sonha com o filho que se matou.