February 11


Uau au au au
segunda de
carnavau
50 anos da
morte de
Sylvia

Não, não fiquei todo esse tempo de tocaia à espera da data. A lembrança do dia foi apenas uma coincidência. Estava relendo a introdução de Ted Hughes a The Collected Poems, editado e organizado por ele. Hughes inicia a primeira linha exatamente com “By the time of her death, on 11 February 1963”...
Fiquei feliz qual um menino quando saquei. Em parte porque não dou nem nunca dei maior importância a elas, coincidências. Desde muito cedo vi que são apenas o que são, não sinais disso ou daquilo ou de clarividências como querem os supersticiosos. Se a realidade já me rouba quase todas as certezas, que dirá os delírios, as esperanças de que a vida devia ser o que não é. E, pensando bem, sequer posso afirmar que tenha sido um daqueles casos de “estar no lugar certo na hora certa” (generalização igualmente cara aos cultivadores de crendices, também característica dos que se deixam iludir por delírios esperançosos, os que exaltam em escritores como Gabriel Garcia Marques a imaginação, que para mim é escandalosamente previsível e sacal). Pois, em se tratando de Sylvia, estou (quase) sempre na hora certa no lugar certo. A leio praticamente a cada dia. Coincidência de fato teria sido se o 11 de fevereiro tivesse arrebatado o olhar dum vivente entre os bilhões que jamais ouviram falar da criadora de Ariel.
Em The Collected Poems, Ted Hughes (para quem não sabe, ex-marido da poeta) reuniu a maior parte da produção de Sylvia, sob a preocupação primeira, conforme explica na introdução, manter a cronologia correta dos poemas. Tendo vivido com Plath até dois anos antes de sua morte, Hughes descreve como e onde (re)encontrou a maioria dos poemas em revistas e jornais para essa coletânea. E relata — infelizmente, apenas en passant — que foi testemunha da confecção de vários deles, sobretudo alguns pertencentes ao que chama de “terceira e última fase”. Em aparte devo dizer que nessa introdução Hughes em nenhum momento dá uma de gaiato se exibindo ou botando banca por ter estado lá como marido. A trata sempre como “Sylvia Plath” ou “a poeta”, não se permitindo tons de intimidade em que outros em sua situação facilmente resvalariam. Do começo ao fim se preserva sóbrio e algo frio. Como aparte do aparte acrescento que fiquei imaginando — e esperando — que, sendo poeta, ele baixaria a guarda, se entregando à emoção, partindo para as confissões tão aguardadas por leitores interessados nas futricas que rodam o mundo em torno da vida e do suicídio de Plath.
Não vou fazer um panegírico de sua morte. Poetas de verdade não o merecem. Homenagens, sejam em vida ou fúnebres, devem ser guardadas para colossos morais como José Sarney ou Lula da Silva, essa gente destituída de honradez e que por isso mesmo precisa que se lhes enalteçam a mediocridade. Deixo para os desinteressados da poesia a tarefa de lamentar que Plath tivesse apenas trinta anos quando encheu os pulmões de gás de cozinha na mais pútrida de todas as flores: a da idade. Que chorem eles pelas sabe-se lá quantas centenas de poemas desaparecidos ainda na se-mente na atormentada-mente. E que lastimem que as circunstâncias que envolveram o episódio de sua morte, as repetidas traições cometidas durante o casamento por Hughes, por sua vez poeta maior, os evidentes sinais de padecimento psíquico e o trágico, tétrico do palco e da cena que escolheu para seu suicídio tenham sido os grandes impulsores de seu nome ao estrelato literário. Desde fevereiro de 1963 até hoje tem-se falado muito mais de sua biografia que de sua poesia, até que esta se eclipsou sob aquela. Escreveram-se inúmeras biografias de Plath e, de Hughes, uma “não autorizada”. Após o episódio, uma legião de feministas apontaram seus dedões em riste para Hughes, o acusando levianamente de responsável pela morte da ex-esposa, cobrindo-o de insultos em eventos de que participava, alegando que empurrara Plath até aquele episódio sinistro. E se redigiram incontáveis “análises psicológicas” — umas, razoavelmente honestas, outras, decididamente psicanalhas — contra Plath no afã de enaltecer, explicar ou meramente vilipendiar sua obra.
Entre os próceres do métier literário que não enxergam qualidade na poesia de Sylvia Plath está Harold Bloom, o mais popular dos críticos literários da atualidade — e no entanto um dos mais prestigiados na academia, por paradoxal que soe. Ficaram célebres os maus bofes com que foi obrigado a se debruçar na obra de Sylvia. Não poupou nem seus poemas nem seu romance The Bell Jar.
Entendo, até.
Cito um trecho do livro Bloom’s Major Poets:
“A poesia norte-americana do século 20 é imensamente rica em mulheres de gênio: Gertrude Stein, Hilda Doolittle, Marianne Moore, Louise Bogan, Léonie Adams, Laura Riding, Elizabeth Bishop, May Swenson, Amy Clampitt e várias poetas vivas. Se acrescentarmos a grande poeta canadense Anne Carson, que está à altura de qualquer poeta vivo atualmente, pode-se dizer que se estabeleceu um padrão extraordinário. Por esse padrão, dificilmente pode-se elogiar em Plath muita coisa além de sua sinceridade. No entanto, Plath claramente atende a uma necessidade, nem estética, nem cognitiva, mas profundamente afetiva. Nesse sentido, continua sendo uma escritora representativa e o fenômeno de sua popularidade é digno de meditação crítica. Talvez deva ser colocada na categoria da poesia popular, na companhia da assaz diferente (e maravilhosamente bem-humorada) Maya Angelou.”
Quis traduzir o trecho acima para deixar claro o significado de que “dificilmente pode-se elogiar em Plath muita coisa além de sua sinceridade”, em minha opinião bom indício de que Bloom parece não dar maior importância à honestidade com que um poeta trabalha sua matéria prima, ou seja, si mesmo. Comecei a escrever aos 13 anos e posso declarar com a mão sobre a Bíblia (ao menos para mim mesmo, pois que sou meu mais interessado leitor), que a maior peleja de qualquer escritor ou artista é precisamente reunir, a cada minuto em que se ponha a esmiuçar a própria alma buscando transcrever sua verdade, coragem para evitar cair na autoempulhação. Aos que não escrevem a sério, cabe um alerta: o autotrambique pseudoliterário é muito mais corriqueiro do que possa parecer, creiam. Posso, portanto, declarar solenemente que, se o segundo maior crítico literário está alheio a tão trivial — mas não menos importante — componente do fazer artístico, então não é nem de longe o segundo maior crítico literário nem de hoje nem de nunca.
Lá se vão cinquenta anos, e virão outros tantos, de mistificação, mitificação, fofocaiada digna das páginas de tevê da Folha de São Paulo, frivolidade à altura das “reportagens” da Vejinha, literatice traficada em cadernos especializados dos jornais, psicanalhismo que não requer qualificativos, crítica literária sempre apresentada em enciclopédicos ensaios em que os autores esbanjam a tão familiar autossuficiência cafona do professor a regurgitar sapientismo. E o suicídio, as circunstâncias em que foi cometido, as duas crianças a dormir “angelicalmente” no quarto ao lado, a possibilidade de que a mais velha, Frieda, então com dois anos, deparasse com o cadáver da mãe no chão da cozinha diante do fogão (há “controvérsias” sobre tal possibilidade, o que serve apenas para demonstrar que todos já viraram do avesso tudo que se refere à vida da poeta e todos acham que têm algo a dizer a respeito). A imensa maioria obviamente idolatra o totem constituído de poesia visceral que deu cabo da própria existência num drama à altura de seus versos. Harold Bloom talvez a abomine exatamente por isso.
Terá Plath, aos olhos do professoral Bloom, cometido a heresia de permitir que a sujeira de sua vidinha de sofredora ordinária maculasse a sacralidade da Poética que se tornou divina, fora do alcance do intelecto humano, a partir do instante em que o bravo caçador Shi Bao Tiao declarou seu amor em versos à arrebatadoramente bela Fang Mu Rui num povoado perdido no meio de Cantão no ano 6837 a.C.?
Como seria de esperar, um justiceiro literário com o poder de fogo de Harold Bloom já abateu muitos outros escritores e poetas malfeitores em suas temidas razzias pelo Velho Oeste.
Um dos enganadores das letras que foi desmascarado pela metralha verbal de Bloom é o nosso velho conhecido Edgar Allan Poe.
O professor de Yale e orientador da Camille Paglia, sua fiel escudeira mundo erudito afora, vê em Poe “o maior enigma da poesia americana”. Poemas como “O corvo”, “Os sinos” e “Annabel Lee” não passam de jingles (afirmação nem um pouco original, aliás). Se existem alguns que não são ruins é porque imitam Byron, Coleridge e Shelley. E os contos de Poe não ficam atrás em termos de ruindade. Para Bloom, são “pesadelos da dicção e da visão”.
Mas o que aparentemente mais perturba o delicadíssimo senso estético de Bloom (que, ao que eu saiba, jamais verteu um só verso em sua longa existência de caçador de falsos poetas) é a enorme popularidade do autor de A máscara da morte escarlate, com maior número de leitores que os consagradérrimos Walt Whitman e Robert Frost.
Não sei para vocês aí fora — com perdão do americanismo —, mas a mim me evoca um tipo de conspiração que, em sua ojeriza a Poe, Bloom esteja ecoando outros críticos ilustres do genial bostoniano (ou autor de O corvo, como preferirem) como T.S. Eliot (em From Poe to Valéry, 1949).
O ensaio de Eliot sobre Poe se inicia assim:
O que pretendo aqui não é uma estimativa judicial de Edgar Allan Poe; não estou tentando decidir o posto que ele ocupa como poeta nem isolar sua originalidade essencial. Poe é realmente um obstáculo para o crítico judicial. Se examinarmos detalhadamente sua obra, não encontraremos senão uma escrita desleixada, um pensamento pueril sem a sustentação duma leitura ampla ou erudição profunda, experiências aleatórias em vários tipos de escrita, em geral feita sob a pressão da necessidade financeira, isenta, em todos os detalhes, da perfeição. Isso não seria justo. Mas se, em vez de considerar sua obra analiticamente, a olharmos de longe, como um todo, veremos uma massa de forma ímpar e de tamanho impressionante para a qual o olho retorna constantemente. A influência de Poe é igualmente desconcertante. Na França tem sido imensa a influência de sua poesia e de suas teorias poéticas. Na Inglaterra e na América, parece quase insignificante. Será possível indicar qualquer poeta cujo estilo pareça ter sido formado por um estudo de Poe? (...) mas quanto a Poe nunca terei certeza.
É curiosa essa introdução de Eliot à obra de Poe. Logo de cara o genial autor de Terra arrasada adverte que seu texto não é uma “estimativa judicial”, para em seguida decretar dogmaticamente que a escrita de Poe é desleixada, seu pensamento, pueril e sua cultura, sofrível. (Depois dizem que o bipolar sou eu.) Pior ainda: Poe escrevia por “necessidade”, credo!
Antes de prosseguir, me permitam um ligeiro parêntese. Como todos que lidamos com as palavras sabemos, Eliot foi um poeta refinado e elegante, egresso de família da classe média abastada americana que futuramente se mudaria para a Inglaterra, adotando modos, hábitos e cacoetes de aristocrata britânico. Homem de Harvard, o suprassumo acadêmico de seu país, e depois filósofo pela Sorbonne, foi também um marido exemplar. Em 1932, quando retornou aos EUA, abandonou na Inglaterra sua esposa Vivienne, que em 1938 seria internada num sanatório onde permaneceu até morrer em 1947. Durante o longo período de internação, Vivienne jamais recebeu uma visita do marido.

(Certo, segundo os estruturalistas, a vida dum autor nada tem a ver com sua obra. Que o digam o pró-fascista Pound e o pró-nazista Céline. De minha parte, concordo até certo ponto. Mas a questão aqui é exatamente especular se o suicídio de Plath e a projeção que sua poesia ganhou posteriormente à sua morte têm alguma influência ou mesmo fortaleceram a antipatia de Bloom pela obra da poeta.)
Retomando o ensaio de Eliot, me admira que ele não o tenha usado para acusar Poe de vagabundo, bêbado e viciado em ópio e haxixe, no que estaria, por assim dizer, coberto de razão.
Mas o criador do sublime poema Homens ocos, ao bater o martelo sobre o “desleixo” de Poe, não está sozinho entre os grandes da literatura em seu cuidado em evitar uma “estimativa judicial”. William Butler Yeats, o excelso poeta e dramaturgo irlandês, classificou o estilo de Poe de “tawdry”, vocábulo arretado que eu verteria entre “espalhafatoso” e “bocomoco” (mais este que aquele, talvez). Cumpre notar que, ao contrário de Edgar, que desperdiçava sua vida inútil em dissipação nos botecos de Boston em incessante comunhão etílica com marinheiros e carnal com prostitutas, o prendado W.B. exerceu, entre outros, o prestigioso cargo de senador. (Vejo na Wikipedia que ele foi, ainda, galardoado (sic; pobrezinho) com o Nobel de Literatura de 1923.
(Mais um aparte: W.B. Yeats havia morado no mesmo apartamento em que Plath tirou a própria vida. Essa, sim, é coincidência digna de consignação, como diria um aluno do Roberto Schwarz.)
E vejam só que ironia: até mesmo o bandalho D. H. Lawrence veio meter sua... colherzinha no angu tachando o estilo de Poe de... “extremamente vulgar”.
Para finalizar em grande estilo esta seção dos antipatizantes de Edgar Allan Poe e dos literatos que, para ojeriza dos críticos, não fazem ou fizeram de sua arte um trabalho de ourivesaria, tenho de citar o superintelectual inglês Aldous Huxley, que, como todo superintelectual, tem sempre algo a dizer sobre o que quer que seja.
Huxley abre um ensaio que denominou Vulgaridade na literatura se perguntando se Poe era um grande poeta, a seguir se valendo do pretexto da dúvida para explicar por que em sua opinião Poe escrevia mal. E para justificar o título do ensaio, compara a escrita de Poe a alguém que use um anel de diamante em cada dedo, o que é indesculpável para homens sensíveis e requintados. (E, convenham, que comparação mais ruinzinha, essa.)
Voltando ao segundo maior crítico do mundo, sabe-se sobejamente que Bloom emprestou sua celebridade para editar e escrever a introdução duma grande coleção de 21 volumes chamada “Bloom’s Major Poets”, na qual uma penca de ensaístas, sob o amplo e acolhedor guarda-chuva do mestre, discorrem sobre os mais populares e/ou citáveis poetas (todos de língua inglesa, salvo engano), Plath e Poe inclusos.
No volume dessa coleção dedicado a Poe, a introdução de Bloom começa assim:
Meu prefácio lamenta a inadequação estética da poesia de Poe, embora conceda que isso, de forma alguma, iniba sua permanente popularidade.
Ao passo que a introdução sobre Plath começa assado:
Meu prefácio sugere algumas reservas que ainda sustento quanto à eminência poética de Plath, embora reconheça que ela se tornou um exemplo de Poesia Popular.
Bem, como não tenho vocação analítica nem queda para uma visão lógico-despenteada das coisas da academia, do mundo dos gênios, da vida dos poetas, vocês vejam aí que é que, se é que, isso significa.
Harold Bloom é o segundo maior crítico literário vivo e não serei ridículo a ponto de concordar ou discordar dele. (Mas Marjorie Perloff dá uma boa peitada no cara em http://www.bostonreview.net/BR23.3/perloff.html.) Para Bloom a poesia de Plath é “derivativa”, julgamento impiedoso e, IMHO, extremamente injusto. E tenho do meu lado ninguém menos que Camille Paglia, que foi orientanda dele no Harpur College e considera Daddy um poema “central” do século 20. Data venia, me permitirei um palpite sobre a posição de Bloom quanto à poesia de Plath:
Bloom não aceita que a biografia de Plath tenha superado sua obra em termos de fama, colocando sua vida, em inúmeros círculos e circuitos de debate, acima de sua poesia. Ante o resfolegante personalismo que bafeja tudo e todos hoje em dia, parece razoável. Nas palavras textuais dele, “A reputação contemporânea é o guia mais inapropriado para a sobrevivência canônica.”
Não há como refutar Bloom quando, da poeta Adrienne Rich, ele diz ser “de inacreditável ruindade, pois segue os critérios em vigor hoje em dia: tudo que conta são raça, gênero, orientação sexual, origem étnica e propósito político do pretenso poeta.” Não por acaso, Bloom inclui Plath e Rich no que denomina “Cultura do ressentimento”.
Mas há algo de cruel na imparcialidade científica com que ele atira na vala comum todos os poetas confessionais. (Não vou chamar atenção para o termo com aspas.) Anne Sexton é tão desprezível quanto qualquer metido que desande a poetizar suas experiências emotivas particulares. (Será que o último período mereceria um tratado à parte? Mereceria. O que não, na grande poesia?) Uma porção, a mais poderosa, há décadas pugna para que a vida do autor não se intrometa em sua obra, princípio que se exacerbou depois do estruturalismo. Continuo, ainda, me perguntando que mal podem fazer as confissões? Os críticos anticonfessionalistas defendem que a poesia deve ser considerada por sua lógica interna, o que constituiria uma posição formalista. Como se sabe, o cânone para Bloom é, obviamente, Shakespeare. Nos tempos do bardo de Avon dificilmente seria possível que um poeta se exprimisse na primeira pessoa (será por isso que abundavam as vozes impessoais?), primeiramente porque havia toda aquela montanha de roupa a vencer até chegar ao pobre coitado que jazia lá no fundo. A academia, e grande parte dos escritores tidos como relevantes, ainda hoje abomina olhar o mundo através do “eu”. No texto em que desanca a poesia de Plath, Bloom apela para um apótema (aforismo, para os não eruditos) de Wilde: “Toda poesia ruim brota de sentimentos genuínos”. IMHO, escolha não muito confiável de fonte (o que, para alguém da estirpe de Bloom, fala horrores). As blagues de Wilde, por mais perturbadoras e certeiras, são apenas isso: blagues.
E Wilde já foi muitas vezes acusado de se apropriar indevidamente de ditos espirituosos alheios. Um dos mais famosos, “a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude”, que todo mundo e seu pizzaoilo credita a Wilde, na verdade pertence ao duque La Rochefoucauld.
Trocando em miúdos, Wilde não paira lá muito acima dos grandes escritores que ao longo dos tempos preferiram fazer graça a fuçar a verdade. Foi um, digamos, Gore Vidal do século 19. Em De Profundis, carta que escreveu ao ex-amante lorde Douglas durante sua (dele) estadia na prisão de Redding e, como tal, destinada a fins eminentemente epistolares, Wilde lava uma das mais patéticas roupas sujas da história da literatura mundial e já não ostenta a empáfia do brilhante frasista que gostava de rir de tudo e de todos até pouco antes. Se lamuriando numa cela imunda do medieval sistema carcerário inglês (que depois de solto denunciaria em duas longas cartas a um jornal), Oscar certamente já não podia reclamar que “toda poesia ruim brota de sentimentos genuínos”. Parece que determinadas certezas que desenvolvemos ao longo da vida no fim se mostram meros frutos das, digamos, circunstâncias. E podem mudar, talvez radicalmente, assim que estas mudam.
E encerro a participação de Oscar neste imbróglio lembrando que ele, Oscar, admirava Poe. Terá tão revelador detalhe escapado ao poderoso cérebro analítico de Bloom?
Consumidor exigente de poesia vertida pelas mãos nobres e certeiras de vates sãos e lúcidos, Bloom acusa tanto Plath quanto Poe de histéricos, no sentido clínico da palavra.
Sobre Poe, menciona textualmente sua “ruindade histérica”. Alhures, diz que, como crítico literário, não vê utilidade no que se convencionou chamar de “crítica cultural” e em sua opinião a má eminência (sic) de Poe resulta “do gosto popular pela repetição, por melodias fáceis, pela intensidade exacerbada e pela histeria por si só”.
Quanto a Plath, tem a declarar que a “Insanidade histérica (...) não é um sentimento que perdura em verso. A poesia depende do tropo, não da sinceridade. Acabei de reler Ariel (...) e me vi murmurando de novo o aforismo definitivo de Oscar Wilde: ‘Toda poesia ruim brota de sentimentos genuínos’.” (Com perdão da repetição.)
Histeria é um vocábulo frequente em seus ensaios. Nesse sentido só tenho a me regozijar que o mestre jamais botará suas pupilas de águia em qualquer garrancho da minha lavra. Na certa arreganharia o nariz e, enojado com tamanha carga de sinceridade histérica, cobriria seus ariscos olhos com a mão desossada(*).
(*) apud. Naomi Wolf. A encantadora feminista americana alega ter sido vítima de assédio sexual por parte do seu então educador em Yale. Ela o convidara para um jantar em sua casa, que aproveitaria para lhe mostrar um livro de poemas que escrevera. Sempre segundo a própria Naomi, Bloom passou a noite a sorver alentados goles do inebriante Amontillado que ele mesmo havia levado ao jantar. Assim que outros dois convivas se escafederam, a bela Naomi sentiu a citada mão desossada pousar solerte sobre sua (belíssima, diga-se) coxa. Vejam vocês mais uma vez aqui a manifestação do acaso. O Amontillado figura exatamente no conto The Cask of Amontillado, escrito por quem? Sim, ele mesmo: nosso sempre chapado Edgar A.P. Depois não digam que estou forçando a barra com esse papo de coincidência. Quanto a Naomi, na época estava precisando duma carta de recomendação do mão-boba para obter uma bolsa de estudos numa universidade e fez boca de siri sobre a alegada tentativa romântica do professor. Sabem quando foi que ela finalmente abriu o bico? Vintes anos depois...
No frigir dos ovos, Poe tem contra si os votos dos supramencionados Eliot, Yeats, Lawrence e Huxley.
A seu favor contam Baudelaire, Mallarmé e Valéry (os quais, segundo Bloom, só apreciavam a poesia de Poe por não terem bom ouvido para a língua inglesa.) Outros simpáticos ao grande precursor do movimento gótico foram o escritor André Gide e o crítico Paul Claudel. Mallarmé até o homenageou com o soberbo soneto Le Tombeau d’Edgar Poe, de 1816. E como se ainda fora pouco, outro grande fã de Poe era James Joyce, que, estivéssemos num programa de calouros, facilmente poderia decidir a contenda no tie-break.
Digamos que Poe e Plath tenham tido em comum algo que se manifestou com profunda contundência na obra de ambos: o fascínio e a obsessão pela morte.
Cujo culto, para Bloom, parece ser um pecado mortal.
Vou me abster de mapear a obra crítica de Harold Bloom em busca de sinais de simpatia e antipatia literárias envolvendo a relação de seus analisandos com a extinção. Tampouco farei uma lista dos poetas suicidas que ele criticou. Quero apenas anunciar — mais para efeitos que tal anúncio possa produzir em mim mesmo que em qualquer pessoa que me leia — que a poesia de Sylvia Plath não se esgota no divã dum psicanalista.
Uma das origens da má-vontade de Bloom para com Plath é que a vida dela com Hughes serviu de palco para um espetáculo cafona que no fim ofuscou a poesia de ambos. Sendo um dos paradigmas da crítica literária dos últimos 60 anos, ao lado de George Steiner, tendo criado o conceito do cânone shakespeariano e estudado tantos escritores cuja existência real pouco ou nada significaram em suas obras, deve ser inadmissível misturar biografia e literatura.
Críticos, estudiosos, ensaístas do “porte” de Bloom buscam enxergar uma ciência atrás dos versos dum poeta. Mais que alguém que expresse o que sente, procuram o artífice que lavre sílabas, fonemas, versos e ritmos que deem a “forma” mais apropriada ao “conteúdo” numa garimpagem cuidadosa, disciplinada que produza pepitas cujo fulgor nos ilumine o cérebro e nos inebriem os sentidos em jorros de luz que nos deixe entrever o que ocorre em nossa treva interior.
Um supererudito como Bloom não lê poesia mas se haure de dados em forma de versos que são computados pela hiperinteligência que o habita qual um animal inumano equipado com zilhões de processadores que instantaneamente cruzam uma infinidade de informações para exibir ante nosso olhar deslumbrado a mais intricada rede de referências literárias. Para justificar sua repugnância aos poemas de Plath, Bloom cita dezenas de outros poetas que considera superiores a ela, a maioria dos quais nunca li nem lerei, muitos dos quais não conheço sequer de ouvir falar. Quem leu O espírito e a letra, de Sérgio Buarque de Hollanda, sabe a que me refiro. Outro ilustrativo exemplo pátrio de hipererudição com que você não consegue dialogar enquanto lê é a superobra do super Otto Maria Carpeaux (aliás, o único intelectual, até onde sei, que não hesitou em dar um belo esculacho em Aldous Huxley por este ter bancado o supremo asno literário ao proclamar que “um criminoso nunca poderia escrever um bom poema”.
Outro que sabe do que estou falando é quem leu a inacreditável análise linguística Os oximoros dialéticos de Fernando Pessoa, de Roman Jakobson (com ênfase no “á”, como gostava de pronunciar seu despachante no Brasil, Haroldo (nenhuma coincidência) de Campos).
Não sei o que o primeiro maior crítico do mundo teve a dizer, se é que disse algo, sobre a poesia de Plath. Estou me sentindo até um tico melancólico pensando na peleja que sintetizei dos simpatizantes versus antipatizantes de Poe. De que lado fico, Joyce ou Eliot? Lawrence ou Mallarmé?
Por que tudo está tão quieto, que é que escondem?
Tenho duas pernas e vou andando sorridente
Eis com quem fico.
Bloom e seu clube de intelectuais profissionais não aceitam que o vendaval emocional de Plath seja uma das fontes de sua poesia. Preferem que apenas a disciplina, o senso de tarefa do poeta se envolva no fazer poético e que o produto final possa ser medido pelos termômetros anímicos que têm dentro do cérebro.
Agora o feminismo.
Leio em um site perdido na bruma internética uma postagem de 19 de setembro de 2010 de alguém que se identifica como Katrina. O comentário de Katrina se refere a uma foto em que estão Plath e Hughes e é o seguinte:
“Não consigo imaginar um homem que pareça mais perigoso do que este”.
São, Christ, cinquenta anos de feministas a revolver o defunto e a babar espuma pelos bicos de abutres, querendo picar o fígado do mulherengo Hughes que trocava de mulher como quem faz a barba todas as manhãs. Alguém com o nome Robin Morgan chegou a escrever um poema com o nome The Arraignment em que acusa Hughes pelo assassinato de Plath e o condena por receber direitos autorais relativos à obra da esposa e o ameaça de cortá-lo em retalhos e depois enfiar seu pênis em sua boca (dele, não dela).
Uma busca no google levanta milhares de links de exasperante bobajada feminista em torno da “vítima” e sua infinda lamentação sobre as agruras duma mulher da década de 1950 e início da de 1960. The Bell Jar foi publicado na Inglaterra em janeiro de 1963, menos de um mês antes do suicídio de Plath e só seria lançado nos Estados Unidos dez anos depois. Uma tal Jeanette Winterson, das mais radicais, não se esquece de mencionar que à época Trópico de Câncer, de Henry Miller, era relançado nos EUA após ficar interditado por muitos anos. Nas palavras de Winterson, Miller é um misógino e seu livro é um “masterpiss” (nota dez pelo inspirado trocadilho) em que metade da população vive na zona, todas as mulheres existem para dar (as ricas, para que se lhes tirem a grana, as pobres, para enfrentarem a pia e o fogão). No fim Winterson lasca: “como é que uma mulher não ficaria louca num mundo desses? Como é que uma mulher talentosa qual Plath não ficaria terminalmente deprimida ao ponto do suicídio? Valium não muda o mundo. O feminismo, sim.”
Eis como a literatura pode servir a propósitos específicos ao gosto do freguês. A poesia de Plath, eivada de desespero, vibrante de nervos, convulsionada de violência emocional e gana de viver dolorosamente frustrada a cada novo ângulo de seu olhar, a cada nova promessa no toque dum recém-conhecido, densa qual a antimatéria dos desejos e dos sentimentos impossíveis de realizar, a poesia de Plath, cada um de seus consumidores, “grupos de estudo”, facções políticas e acadêmicos indolentes fez e faz dela pretexto para corroborar suas posições à conveniência da hora. A pequenez não tem limites, tem comprovado a física a cada dia que passa. No caso de Plath, a grandeza idem. Eis como fazer gato e sapato duma hipersensibilidade poética. Cinquenta anos depois se discute até mesmo se os prozacs nas prateleiras das farmácias poderiam tê-la salvado. Há advogados do sim e do não. Os últimos alegam que hoje em dia os índices de suicídio estão bem mais elevados que naquela época. As feministas parecem se dar por satisfeitas pelos apupos a que submeteram Hughes por anos a fio, praticamente soterrando a reputação dele como um dos maiores poetas da Inglaterra. Os explicadores que pensam deter o segredo da mecânica da vida enxergam na poesia de Plath apenas os sintomas dum intenso desequilíbrio psíquico.
O crítico Steven Gould Axelrod tem algo muito interessante a dizer sobre tudo isso: “O paradoxo de que os textos de Plath não podem ser lidos através de biografias nem fora delas”. Para puristas feito Bloom, um acinte.
Ontem caiu um meteoro na Rússia e não na minha cabeça, como tanto esperava.
Não, você não dormiu e acordou lendo outro texto. Ainda sou eu falando de Sylvia Plath.
Às vezes também chego a picos de gênio, como em blogando 0057. Acontece, em casos como o meu, sem querer. Quem poderá me crucificar? Não temos, não tenho culpa de nada. Quando nasci pensei estar vindo a um mundo em que poderia usufruir dum mínimo de liberdade, livre arbítrio, laissez-faire, não este inferno em que estou hoje, povoado de robôs facebookianos e alimentado de ar irrespirável.
Vou ficando por aqui antes que estes vagos devaneios a fluir pela noite já escura deste fevereiro desenxabido ameacem virar dissertação de mestrado. Logo eu, que mal conseguia produzir duas linhas quando a professora Ivone passava a dissertação “minhas férias”.
Depois de tanta filosofice, ainda não sei por que raios fui me meter a comemorar o aniversário da morte de Sylvia Plath. Tenho repulsa por comemorações, sejam a que título for. A pobre Plath não devia nem ter nascido, pra começo de conversa. Sofreu pra burro.
Como todos nós sofredores, à toa.
Apesar dos sentinelas da vida alheia, os críticos, chegou perto de nos explicar, a nós zumbis cheios de afoiteza e sofreguidão, por quê.
Plath não devia ter nascido nem ninguém. Este inexplicável planeta ficaria assim destituído destes esdrúxulos seres vindos do nada a carregar uma melancia em cima do pescoço, balangando com a elegância dum boneco-chamariz duma loja de automóveis esses dois apêndices superiores que nos saem do ombro à medida que mexemos a custo esses outros dois apêndices inferiores, divididos por desconexas articulações, sem rumo certo.
O meteoro que mirou os coitados dos russos que passam a vida no gelo inebriados de vodka pesava sete mil toneladas, leio no Estadão. Jesus, bem menos do que eu. E não me pergunte como pesaram. Só sei que eles sabem pesar um meteoro mas não sabem tirar das ruas de Sampa a molecada que cheira cola e baba coca. Certo, Bloom torceria seu narigão que nunca para de farejar o vento à procura do grande cânone mundial ante tão sentimentalóide declaração. Quer entrar pra patota? Então seja comedido, discreto, circunspecto. Mantenha o olhar perdido na distância. Longe das mazelas demasiado humanas. Melhor: dispa-se de toda humanidade. Só assim poderá transvazar a poesia genuína, isenta dos nossos hormônios, lavada das nossas excreções, purgada dos nossos horrores. Sobretudo, não se esqueça de que a poesia pertence ao reino e ao reinado da todopoderosa palavra, onde nasce, onde morre. Por nossa patética vez, nascemos sem palavra e morremos sem palavra e por isso mesmo nos cabe a nós poetas exatamente aquela que não nos coube para expressar o que somos.
Ou não expressar o que não somos.
Pra encerrar, uma resposta que minha cozinheira Oraldina (podem rir mas é verdade) sempre me dá quando reclamo da comida:
“Não gostou, é? Então para de criticar e vem aqui no fogão fazer melhó!”
Pronto, acabei de inventar o ensaísmo confessional.